Ataques solitários são maior ameaça para a Europa desde a Segunda Guerra Mundial

Para professor, serviços de inteligência não estão conseguindo rastrear este tipo de terrorista

Os serviços de inteligência europeus estão com muitas dificuldades de controlar um fenômeno terrorista que vem se repetindo: o atentado realizado pelo chamado “lobo solitário”. Essa situação, segundo o especialista em contraterrorismo Ricardo Gennari, pós-graduado pela Universidade de São Paulo, ocorre justamente porque não há como detectar e prevenir o ato, praticado por um cidadão comum, sem um plano organizado. E a tendência é a Europa continuar vivendo essa ameaça por alguns anos, na opinião dele.

— Esta é a situação mais tensa vivida pela Europa desde a Segunda Guerra Mundial. Isso infelizmente deve prosseguir por um tempo. O terrorismo se transformou. De algo localizado se tornou nacional, com grupos como o ETA (Espanha) e o IRA (Inglaterra) e a partir dos atentados de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos, transformou-se em fenômeno transnacional, sem fronteiras.

A fronteira, na verdade, passou a ser a mente daquele que decide realizar esse ato criminoso, como um rastro de pólvora vindo em sequência de outro ato anterior. É a isso que o professor Gennari se refere, já que o ataque de Londres realizado nesta quarta-feira (22), teve semelhanças com atentados como o de Berlim, realizado em dezembro último.

 

Em ambos houve atropelamento e facadas. Na capital londrina, três vítimas morreram após um homem atropelar um grupo de pessoas e esfaquear um policial, nas proximidades do Parlamento britânico, antes de ser morto a tiros. Em Berlim, um homem dirigindo um caminhão invadiu um mercado de Natal, matando 12 pessoas. Antes ele havia assassinado o motorista, a facadas.

— Como ocorreu agora, em Londres, esse tipo de atentado é muito difícil de ser detectado. As forças de inteligência estão voltadas para questões macro. Nestes atentados realizados por lobos solitários, cada um deles pode ser cidadão comum, simpatizante de grupos como o Estado Islâmico que, por um motivo o outro, vai e comete o atentado.

A derrocada do Estado Islâmico na Síria e no Iraque, neste momento, é um fator que pode até estimular tais ocorrências. Os militantes que sobram, segundo Gennari, se deslocam por outras regiões desses países ou até ultrapassam a fronteira. Mas, enquanto são combatidos, disseminam pelo mundo uma mensagem destruidora, contra os valores ocidentais, que se encaixa em indivíduos revoltados com as condições de vida de populações predominantemente islâmicas e africanas nas periferias das grandes cidades europeias.

— A tecnologia da inteligência europeia tem conseguido rastrear células que se espalham pelos países. Mas não sé capaz ainda de identificar os tais lobos solitários. Eles são estimulados pelas precárias condições sociais das populações excluídas em cidades europeias e, baseados em um radicalismo islâmico, querem destruir os valores ocidentais. É diferente de reivindicações de grupos como o IRA e ETA que, até alguns anos, buscavam basicamente alvos oficiais e com um objetivo específico.

A origem do terror

Uma semana antes do atentado de Londres, o ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe González, afirmou ao R7 que o atual terrorismo islâmico se diferencia do praticado por grupos como o IRA e como o ETA, cuja atuação foi um dos principais problemas durante o governo de González na Espanha (1982-1996).

— O terrorismo islâmico é completamente diferente. Com o IRA, havia um conflito territorial e religioso. Com o ETA, era algo territorial, não religioso, de duas vertentes, uma que defendia a independência e outra de cunho marxista-leninista, no fim da Guerra Fria.

O ex-primeiro-ministro ressaltou que uma das maneiras de prevenir tais atos é entender melhor a filosofia destes radicais islâmicos.

— O terrorismo islâmico tem suas características e os meios de comunicação ainda não prestaram atenção. Quando há um atentado suicida com 20, 30, 50 mortos em um mercado em Bagdá ou na porta de uma mesquita, com homens-bomba ou em carros que explodem, foi algo realizado por xiitas. Os do tipo assassinato direto ou por tortura, são de sunitas. Na interpretação xiita do islã não é permitido o suicídio, enquanto na sunita o suicídio é um passaporte para o paraíso.

Tal afirmação de González teve como objetivo mostrar que é possível aprimorar as investigações com base nas informações, tornando mais conhecidas as células terroristas. E direcionando a investigação de acordo com a característica de cada célula.

— A população sempre tem mais medo quando menos se compreende e se explica a origem do terror. Se há explicação, sente medo mas tem uma explicação. Alguns de meus colegas políticos dizem que nenhum tem explicação, isso é uma bobagem. O que não tem é justificativa. Mas, se não se explica, há mais dificuldade de combate do que quando se explica e compreende. Se entendermos que um xiita não se suicida, podemos identificar o atentado simplesmente pela informação.