O Brasil de Tite está na Copa da Rússia. E quebrando recordes.

Humilhou o Uruguai em plena Montevidéu. 4 a 1, de virada. Foi a sétima vitória em sete jogos de Eliminatórias.

Tite conseguiu. Passou João Saldanha. O Brasil mostrou muita confiança e personalidade. Venceu o Uruguai e calou o pleno mítico estádio Centenário, em Montevidéu, por 4 a 1. De virada. Com três gols do onipresente Paulinho e outro golaço de Neymar. Pela primeira vez na história das eliminatórias sul-americanas um país venceu sete partidas consecutivas. Todas as sete no comando do novo treinador da Seleção Brasileira. Foi a quarta vitória seguida do Brasil fora do país. Outro feito inédito.

Os brasileiros estão na Copa da Rússia. Com os 21 pontos seguidos do time de Tite, a Seleção atingiu 30 pontos. Matematicamente está garantida no Mundial de 2018.

Tite acabou com o mito das Eliminatórias mais difíceis da história.

Se tornaram fáceis sob o seu comando.

Até hoje, o Uruguai havia vencido as seis partidas em Montevidéu.

Nem parece a mesma geração que estava nas mãos de Dunga…

“Sabíamos da dificuldade que enfrentaríamos hoje. Saímos atrás e tivemos cabeça tranquila para ir atrás do resultado. Precisamos manter o foco, ainda temos muito a crescer. Nunca passou (pela cabeça), mas estamos trabalhando todos os dias e nada é por acaso. Agradeço a Deus pelo momento que estou vivendo e também a meus companheiros, fizemos uma grande partida e conseguimos a vitória”, comemorou, comedido, o renascido Paulinho.

Após a desastrosa Copa do Mundo, Paulinho parecia ter encerrado sua caminhada na Seleção. Perdeu a posição durante o Mundial. Foi esquecido por Dunga. E voltou nas mãos de Tite. E hoje, depois de sua atuação absurda, se tornou o volante que mais marcou gols com a camisa da Seleção. Nove, em 38 partidas

“A Seleção está em evolução. Hoje não nos consideramos os melhores porque estamos numa sequência boa. Estamos evoluindo, é seguir nessa pegada, vamos conquistar coisas boas. Sabemos do nosso potencial, temos time para ganhar dentro e fora de casa. Respeitamos a seleção do Uruguai, um time campeão, mas viemos aqui e nos impusemos desde o início buscando a vitória”, discursou Miranda. O capitão de Tite seguiu a cartilha de conter a euforia de qualquer maneira. Apesar da histórica goleada em Montevidéu.

“Foi mais do que eu imaginava, este é o oitavo jogo (conta o amistoso,voltado para a Chapecoense, que venceu contra a Colômbia), eu não tenho a real noção do potencial de crescimento. O que fizemos como comissão técnica foi antecipar aspectos para preparar a equipe contra um adversário que vem com um técnico há 11 anos (o recordista Tabárez).

“Fiquei feliz com o desempenho durante os 90 minutos, a capacidade de absorver o gol e jogar em cima de uma proposta e uma ideia. Às vezes não vai, você cria, domina, mas você tem uma ideia. E teve também a capacidade de fazer o gol de empate, e mais do que controlar, dominar, mesmo sabendo que o contra-ataque seria mortal. O Uruguai é vertical, em um lance decide. A equipe construiu mesmo saindo atrás, tendo cartões amarelos… Absorver tudo isso e continuar com padrão de desempenho me deixou feliz”, comemorava Tite.

Foi incrível o rendimento da Seleção Brasileira. Por vários aspectos. O primeiro deles foi o fato de a equipe estar quatro meses separada. O último jogo havia sido contra o Peru, em Lima, no dia 16 de novembro. O segundo, enfrentar o Uruguai em Montevidéu. O time que fazia a segunda melhor campanha nas Eliminatórias para o Mundial. Terceira dificuldade, Tite estava sem o seu preferido homem de referência no ataque, Gabriel Jesus, contundido. Mesmo assim, o time brasileiro foi brilhante.

Tite sabia que Óscar Tabárez tinha consciência. Possui um time com menor potencial técnico que o brasileiro. A única saída seria apelar para a pressão que os torcedores transformam o tradicional estádio Centenário em um caldeirão. Mais de 50 mil torcedores começaram a partida gritando, empurrando com os pulmões seu aguerrido selecionado. Os uruguaios estavam com dois desfalques importantes. Suárez e Muslera.

Mesmo assim, para Tabáres era nítido que esperar o Brasil seria suicídio. Ele decidiu encarar o desafio. E tratou de adiantar seu meio de campo. A ideia era pressionar a Seleção assim que a bola chegasse na intermediária. Não era para deixar os talentos brasileiros pensarem. Por isso ele igualou os quatro jogadores que Tite costuma deixar no meio. Inúmeros momentos, principalmente no início da partida, era como se o jogo fosse disputado em cima de um espelho. Com as duas equipes com a mesma formação. 4-1-4-1.

O treinador brasileiro tinha uma certeza. Havia um antídoto para essa pressão. Fazer seu time tocar a bola, com personalidade. Não se encolher diante da blitz preparada por Tabárez. Tite exigiu muito sangue frio de seus defensores. Eles estavam orientados para não dar chutões. E sair jogando tocando a bola, de cabeça erguida. Nas intermediárias, a intensidade, a briga por cada centímetro, característica que está virando marca registrada da Seleção Brasileira. E na frente, Firmino usando sua velocidade para abrir espaço para Philippe Coutinho, Neymar e, principalmente, para Paulinho, que estava em uma noite mais do que inspirada. Onipresente como sempre, desta vez estava artilheiro.

Mas antes dos gols de Paulinho, o susto. O Brasil controlava o Uruguai, quando Marcelo quis esnobar. Uma bola levantada na área, ele foi fazer pose para atrasar de peito para Alisson. O esperto Cavani antecipou o lance e chegou antes do que o goleiro. Alisson o derrubou. Pênalti. E gol de Cavani, aos nove minutos. 1 a 0 Uruguai.

Pela primeira vez, com Tite no comando, a Seleção saía perdendo. Se o time ficou tenso, disfarçou. Seguiu no mesmo toque de bola e movimentação constante do meio para a frente. Os uruguaios recuaram. Iriam usar a estratégia que mais adoram, os contragolpes em velocidade. Mas não tiveram nem tempo para articulá-los. Logo aos 18 minutos, Paulinho recebeu de Neymar na intermediária. Deu um toque na bola e acertou um chute fulminantes, que atingiu 94 quilômetros por hora. A bola foi no ângulo de Martín Silva. 1 a 1.

O gol trouxe mais confiança aos brasileiros. E levou tensão aos uruguaios. O Brasil distribuía melhor a bola, acionava muito Marcelo e Neymar na esquerda. A lenta zaga de Tabárez ficava cada vez mais exposta. O único perigo para o time brasileiro eram as jogadas aéreas, a zaga brasileira falhou muito durante toda a partida. Só não tomou mais gols por sorte. Este é um detalhe que Tite precisa corrigir o mais rápido possível.

O primeiro tempo acabou empatado.

No segundo, Tite manteve sua palavra. O Brasil iria jogar fora como se estivesse dentro de casa. Não recuou como os uruguaios esperavam. E logo aos sete minutos, o atrevimento deu certo. Firmino virou em cima da zaga e chutou forte. Martín Silva espalmou. Paulinho chegou como um centroavante dos anos 70. E empurrou a bola para o fundo das redes. 2 a 1.

Os uruguaios não queriam perder a partida de jeito algum. E se lançaram no ataque. Os brasileiros tinham agora à disposição os contragolpes. Não fez muito esforço para segurar a vantagem. E em um chutão de Miranda, Neymar ganhou de Coates. Diante do desesperado Martín Silva, um toque genial. Com todo o sangue frio, encobriu o ótimo goleiro uruguaio. 3 a 1, Brasil.

O gol aos 29 minutos, e de maneira tão talentosa, calou o Centenário.

Os uruguaios estavam desolados.

O Brasil tocava a bola com autoridade.

E ainda haveria tempo para mais humilhação.

Dani Alves cruza e Paulinho, empurra a bola para as redes, com o peito.

4 a 1, aos 47 minutos do segundo tempo.

Sacramentou a vitória do time mais consciente, mais poderoso.

O time chegou a 30 pontos na tabela de classificação.

Está na Copa da Rússia.

Tite conseguiu resumir bem sua filosofia.

Não comemorou os recordes.

Elogiou o comportamento do time nos 4 a 1.

“Não sei o que vai acontecer ali na frente, mas posso dizer o que podemos fazer agora. Os jogadores ficaram muito felizes pelo desempenho, não falaram do placar. Ninguém pegou a bola e virou o rosto, não tinha firula, trejeito… futebol é ser melhor, fazer gol. Estamos pegando gosto pelo desempenho, isso é legal, isolar o placar e ver se joga bem, ter senso de equipe.”

Demorou 15 anos. Mas o Brasil volta a estar com o treinador certo. Na hora certa…