Atentado é “estímulo” para Putin aumentar a repressão na Rússia, segundo especialista

Presidente buscará manter poder inabalado após mortes em São Petesburgo

São Petesburgo, a cidade das Noites Brancas, onde as tardes se estendem antes de o sol se por, deixou de ser somente a capital cultural da Rússia. Tornou-se agora uma referência para a posição política de Vladimir Putin dentro e fora do país, após o atentado no metrô da cidade, no qual morreram pelo menos 11 vítimas, na segunda-feira (3).

Na opinião do professor de Relações Institucionais da Universidade Federal do ABC, Giorgio Romano Schutte, diante da realidade do terrorismo, a postura do presidente, que já causava revolta da oposição em relação ao seu estilo ditatorial, deverá ficar ainda mais dura e menos democrática. A repressão interna tende a aumentar, segundo as palavras do especialista:

— Ainda que os autores não sejam conhecidos, o atentado vai ser um estímulo para Putin intensificar o controle do governo sobre a política e a população. Esses atentados sempre trazem como efeito colateral o aumento dos controles em todos os países. Atentados como esse diminuem a democracia. Não tem jeito, querendo ou não a reação tem sido sempre essa.

A “mão pesada” de Putin tem sido a marca dessa Rússia que, como São Petesburgo, busca olhar para frente muitas vezes repetindo velhas práticas. Putin, nascido em São Petesburgo, tenta manter sua autoridade, enquanto sintetiza uma Rússia cheia de conflitos, a do Crime e Castigo, a das desumanas prisões da Sibéria contrastando com as passadas sensíveis de Rudolf Nureyev.

Rússia  do idioma que soa truculento, com fonética aparentemente pouco suave, mas que gera romances de amor como os de Leon Tolstói e de Anton Tchekhov. Linguagem forte que fica doce na música Olhos Negros, fazendo harmônicas frases cortantes como Ochi chornyye, ochi strastnyye; Ochi zhguchiye i prekrasnyye…(Olhos negros, olhos apaixonados; Olhos ardentes e belos…)

A busca de Putin em se tornar protagonista global tem repetido esses conflitos – entre o rude e o belo, o velho e o novo, a balalaica e o estampido de tiro – e despertado a iniciativa da população em superá-los, o que tornaria o país definitivamente mais aberto ao mundo. Neste sentido, segundo a professora Maria Antonieta Del Tedesco Lins, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo, a iniciativa dele de entrar na guerra da Síria colocou a Rússia na mira dos terroristas islâmicos. Tal situação já estava evidenciada no atentado que matou o embaixador russo na Turquia, Andrei Karlov, em dezembro último.

— Parece que o governo russo vai considerar o ataque uma retaliação à sua participação na guerra da Síria. E o grande perigo é a Rússia lidar com esse ataque pela força, intensificando ainda mais seus ataques naquele país.

Políticas interna e externa

Pelos dois prismas, o governo Putin acaba desnudado diante do mundo, já um tanto hostil ao seu estilo. De um lado, o ataque dá brechas ainda maiores para ele intensificar uma repressão interna na busca de manter seu poder intacto. De outro, abre possibilidade dele buscar com mais intensidade o protagonismo externo, para retaliar ainda mais grupos terroristas na Síria. É assim que o professor Schutte aglutina essas duas tendências.

— Antes a intenção de Putin era estabelecer autoridade em seu território, combatendo revoltas como a da Tchetchênia. Agora esse envolvimento na Síria vem em uma segunda etapa e é uma questão que provoca reações contrárias. É até surpreendente que não houve um ataque antes no país, já que, quando uma nação se expõe como a Rússia buscou fazer, é evidente que provoca reação hostil de grupos.

A professora Maria Antonieta ainda acha cedo para considerar que o ataque tenha relação com a Copa do Mundo de 2018, quando a Rússia terá maior visibilidade. Ela considera que, antes, há outras situações que podem sofrer maior impacto, como as eleições na França e Alemanha. Na opinião dela o maior perigo é que esse atentado se some a outros que ocorreram nos países da Europa Ocidental e fortaleça a direita populista.

— Não creio que essa situação irá criar solidariedade da Europa Ocidental ao regime de Putin. Mas tipos de atentados como esse e o de Londres são presentes pré-eleitorais para partidos de direita radical que vão colocar na imigração e nos muçulmanos a culpa por toda a instabilidade que a Europa vive. Esses candidatos, como Marine Le Pen na França, certamente vão procurar se beneficiar dessas tragédias.