Jogo de interesses e indiferença dos países abrem caminho para ataques com armas químicas na Síria

Especialista aponta também que a ONU está sendo ineficiente para fazer a fiscalização

A atmosfera poluída de veneno em Khan Sheikhoun, na província de Idlib, após um ataque químico na cidade da Síria, cuja autoria foi mais uma vez atribuída ao governo de Bashar al-Assad, mostra a velha frase em que, “na guerra, a verdade é a primeira vítima”.

Afinal, meses atrás, o presidente sírio comemorava a vitória em Aleppo. Era como se estivesse vencido o conflito, algo que ainda não ocorreu e, certamente, foi um dos motivos desse brutal ataque que é proibido até na mais triste condição humana: a guerra.

Para o professor de inteligência da Fipe (Fundação Estudos de Pesquisas Aplicadas), Ricardo Gennari, outros motivos têm feito esta barbárie, que na terça-feira (4) matou 58 pessoas, entre elas 11 crianças, se perpetuar: a inoperância da ONU e os interesses dos países na região.

— Existem muitos interesses na região, a ONU não é eficaz no seu papel como foi no começo, após a Segunda Guerra. Hoje ela tem uma função secundária, não tem mais efetividade justamente por causa dos interesses. E para fiscalizar precisaria de apoio militar. Será que esses países aliados estão dispostos a fazer essa fiscalização? É um grande jogo de interesse, por enquanto ninguém tem.

No Protocolo de Genebra, de 1925, a utilização de armas químicas e afins é proibida. Assim como na Convenção sobre as Armas Químicas, de 1997. Este armamento já causou estragos enormes desde a Primeira Guerra Mundial, com gases como o cloro (utilizado em Idlib), mostarda, sarin. Gennari, que também atua na Troya Inteligence, uma importante consultoria brasileira, pondera que a própria existência da ONU, criada em 1948, tem relação com este tipo de fiscalização.

Em declaração, antes do ataque em Idlib, que já é o terceiro formalmente detectado no país, o ex-presidente do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), Enrique Iglesias, exortou os países a voltarem a dar um papel de relevância à ONU.

— As críticas à ONU são importantes porque são uma forma de promover uma reação na entidade. Agora, a ONU são os países, a vontade da ONU é a dos países, não é uma instituição que tem de movimentar os países, são os países que devem reagir cumprindo com as resoluções que são tomadas na ONU.

Lado primitivo

Gennari afirma, por sua vez, que mesmo que a maioria dos países busque seguir as diretrizes da entidade, quem manda na verdade é o Conselho de Segurança, formado por sete países, que, na prática, têm se mostrado indiferentes.

— E são os países que justamente têm os maiores interesses em regiões como a Síria. Concordo com o Enrique Iglesias, mas é lamentável que a ONU não tenha a independência de trabalho. A entidade precisa se renovar, está atrás de seu tempo. É função da entidade a fiscalização de armamento químico bacteriológico e nuclear, mas o aspecto político está imperando.

Sinônimo de aspecto político, neste caso, são interesses militares e econômicos. A Rússia, por exemplo, mesmo tendo sido ferida na carne com um atentado na segunda-feira (3), seguindo o olhar gelado de seu líder, Vladimir Putin, não move uma linha de seu discurso em favor do ditador sírio, que, segundo todas as evidências e a própria ONU, é o maior responsável por esses procedimentos.

— A Rússia mantém seu feudo com Assad que, enquanto estiver vivo, vai conseguir controlar a região onde ele está, a capital e arredores. Estrategicamente a Síria é muito importante para a Rússia, como canal de oleoduto e gasoduto para a Europa, pela questão de fronteira e o acesso da Rússia à região através da Síria. Não acredito que o uso de armas químicas diminua o acordo entre Rússia e Síria.

Diante da precariedade da situação, o lado primitivo emerge com mais força em um país sem controle. E como o ódio cega, bem antes do que as bombas, um governo desesperado acaba apelando sem pestanejar para essa atrocidade. Principalmente, conforme diz Gennari, quando o desespero também vem das dificuldades financeiras.

— O gás é muito mais barato do que mísseis e lançadores, um dos principais motivos que o faz ser utilizado é o valor mesmo, que é muito mais baixo do que qualquer arma convencional. O governo sírio está com dificuldades financeiras, está em guerra já há seis anos, o país está destruído e fracionado, o governo centralizado está acuado em uma área. Não existe o Estado da Síria hoje.

Indignação

Em um cenário mais amplo, o mundo gira enquanto a Síria e outras regiões padecem. Crianças morrem sufocadas por gases enquanto nos bares de São Paulo, Nova York, Londres, pessoas sonham em melhorar de vida. Bombas esmagam idosos enquanto o trânsito emperra as pessoas emburradas nas ruas da capitais. Gennari repete, enfatizando o pesadelo:

— É um armamento feito nos porões, deveria haver uma fiscalização maior da ONU, dos países aliados, da própria Otan. Agora, os interesses são diversos.

Cada um com o seu interesse. Pobres e ricos se viram como podem, muitas vezes, na devida proporção de suas dificuldades, se esquecendo que há pessoas que nada podem. Uma das maneiras de resolver isso é a doação. Outra é a indignação, até para um jornalista escrever um texto sobre este tema, tentando não transparecer que seus dedos tremem.

Mas, com ou sem ela – a indignação – todos nós, até os indiferentes, somos vítimas desta atrocidade. Em algum lugar desta longa fila. Puxada, logicamente, pela verdade.