Idosos usam web para pagar contas, conversar com amigos e parentes e ver notícias

Inclusão digital na terceira idade garante autonomia e faz bem à saúde mental

Há quase uma década, Geraldo Rocco, de 80 anos, paga todas as contas pela internet: “A vida ficou muito mais fácil. Não preciso me deslocar para ir ao banco. Tem muita gente que diz que é perigoso, mas eu não tenho muito medo, não. Nunca tive falta de sorte nesse sentido”, ri. Ele sofre com o mal de Parkinson e se locomove com a ajuda de uma cadeira de rodas.

O próximo passo para Rocco é adquirir um smartphone para conversar com a filha, que mora na Alemanha, e o filho, que mora no Mato Grosso. Segundo especialistas, a inclusão digital na terceira idade evita o isolamento, ajuda no combate a males como depressão e serve como estímulo cognitivo para os idosos.

A mulher de Geraldo, Anna Maria Rocco, de 76 anos, é mais moderninha: tem contas em redes sociais como Whatsapp, Facebook e Messenger.

— Comecei a mexer por causa do meu marido e hoje uso pra falar com os meus filhos que moram longe. Também estou em grupos das aulas de meditação e inglês e, às vezes, utilizo o aplicativo do banco para fazer transações no celular. Costumo dizer que o smartphone é um dos meus anjos da guarda.

No caso de Julio Miskolci, de 81 anos, as chamadas de vídeo pelo tablet são o único jeito de falar com o filho, que é piloto e mora no Catar. Todos os dias às 13h ele aciona o aparelho e aguarda a ligação.

— É bom porque falo com meu filho e também com meus netos, além de acessar o email para ver fotos e mensagens enviadas por amigos e outros parentes.

Para José Carlos Vasconcellos, CEO da TeleHelp — empresa de teleassistência que visa melhorar a vida dos idosos que moram sozinhos —, as novas possibilidades de interação são apenas uma amostra das grandes vantagens que o contato com a tecnologia pode propiciar para a população com mais de 60 anos, que às vezes sofre com isolamento por depressão ou  abandono da família.

— Eu acho maravilhosa essa questão da tecnologia como ferramenta de aproximação, especialmente no Brasil. Aqui, existe um preconceito com a terceira idade, o idoso é esquecido e não se sente representado por ninguém. As redes sociais e os dispositivos digitais funcionam como um caminho para as pessoas se reconectarem.

Já Waldemar Monteiro, de 91 anos, herdou o tablet da mulher, que morreu há seis meses, e está aprendendo a utilizá-lo para poder conferir as notícias do dia pela internet.

Para ensinar Waldemar, a gerontóloga Camilla Vilela, da Cora Residencial Senior — instituição de longa permanência para idosos da capital paulista —, montou um plano especial de aulas curtas com informações sobre como recarregar a bateria do tablet, ligar e desligar o aparelho, acessar aplicativos e etc. “A tecnologia pode garantir a ele maior bem estar e maior confiança de não ter que pedir para alguém realizar uma tarefa. Quando chega uma certa idade, a autoestima dos idosos fica comprometida com certas situações de dependência, de precisar dos outros”, analisa a profissional.

Quem também está aprendendo a mexer no tablet é Isaura Kakuto, que já usa o aparelho para guardar fotos de festas e encontros com amigos. Ela diz que se surpreendeu com as novas possibilidades de aprendizado desde que ganhou o dispositivo da filha, há seis meses: “Tenho 82 anos e não sabia que ainda posso aprender tanto”, ri.

Maisa Kairalla, que é médica geriatra e presidente da SBGG-SP (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia do Estado de São Paulo), relembra que o processo de aprendizagem na terceira idade pode, de fato, ser mais lento.

— Essa geração que tem mais de 80 anos hoje nasceu na era analógica. Além de não estarem acostumados à rotina com esses dispositivos, existe um desafio porque o próprio cérebro tem maior dificuldade em absorver novas informações depois de certa idade. De qualquer forma, aprender é mais difícil, mas não impossível. Se há alguém que possa ensinar, o impacto é sempre positivo.