“Acordei e tinha uma pessoa morta em cima de mim”, diz goleiro da Chape que sobreviveu a acidente aéreo

Atleta e tenente colombiano que participaram do resgate lembraram da tragédia

O voo estava tranquilo. Alguns atletas jogavam cartas e outros assistiam a filmes. As luzes do avião se apagaram e todos entraram em desespero. Foi até esse momento que o ex-goleiro da Chapecoense, Jakson Follmann, conseguiu guardar lembranças da noite em que a aeronave transportava os jogadores e a comissão técnica do clube. “Depois disso, eu só lembro de acordar com muita dor e frio. Tinha uma pessoa morta em cima de mim e eu sentia muitas dores nas pernas e nos pés ”, relatou Follmann, durante participação no 3º Simpósio Internacional de Gerenciamento da Resposta em Catástrofe, realizado pelo Hospital Israelita Albert Einstein nesta sexta-feira (12).

Segundo o atleta, momentos antes da queda, todos os passageiros sabiam que alguma coisa estava errada, mas ao mesmo tempo, era algo que todos se recusavam a acreditar.

— A verdade era essa. A gente não queria acreditar que alguma coisa pior podia acontecer. Naquela noite, eu me recordo que só deu tempo de eu sentar na poltrona, colocar o cinto e rezar. Pedir a Deus que nos livrasse do pior. Ninguém da tripulação falou nada. Foi um silêncio total. Depois disso eu não lembro de mais nada antes da queda.

Os flashes seguintes que Jakson recupera de tragédia são de depois da queda.

— Eu lembro que era como se estivesse em uma praia. Tinha muito barro e chovia bastante, então eu tremia de frio. Eu pedia por socorro e gritava que não queria morrer. Eu acordava e apagava várias vezes. E aí foi que eu vi uma lanterna lá no fundo e alguém gritava: “Policía Nacional, Policía Nacional”. Foi o momento que eu percebi que eu estava seguro, que eu não estava mais sozinho.

O tenente colombiano Nelson Bermudez foi o responsável por prestar os primeiros socorros a Jakson e trocou as primeiras palavras com ele. “Eu estendi a mão para ele e disse que não queria morrer. Ele olhou para mim e disse para eu ficar tranquilo, que eu já estava seguro”, afirma o atleta.

De acordo com Bermudez, havia corpos espalhados por todo o lado e Jakson foi o primeiro a dar sinais de vida no local do acidente.

—  Eu e mais dois companheiros que começamos a fazer o resgate. Nós entramos na mata com dois machados e a temperatura naquela noite era de 2ºC. Foi muito chocante para mim encontrar o Jakson com a perna completamente destroçada.

Responsável pelo atendimento dos quatro sobreviventes do acidente, o neurocirurgião e diretor médico da CBF, Jorge Roberto Pagura, exalta a grande efetividade da parceria que foi realizada entre autoridades colombianas e às equipes médicas brasileiras.

– Nós encaramos essa operação toda um sucesso. A Colômbia está de parabéns por todo o atendimento prestado e mostra o quanto eles tiveram a capacidade de se se colocar no lugar de quem sofreu o acidente.

Recuperação

Para se recuperar dos ferimentos causados na queda do avião, Jakson realiza até hoje sessões de fisioterapia, principalmente na região da cervical, onde ele passou por um processo de reconstrução.

– Eu faço as fisioterapias todos os dias, mas a recuperação está indo muito bem. Não tenho mais tanta dificuldade para andar. A limitação está mais dentro da cabeça. Minha família está sendo muito importante para isso. Eu já era bem próximo a ela, mas isso fez eu me aproximar mais ainda dela.

Jakson ainda afirmou que, por enquanto, ele vai se concentrar no fim da recuperação, mas não descarta o retorno ao esporte.

– Daqui uns aos eu até penso em me tornar atleta paraolímpico, mas isso eu ainda preciso pensar com mais calma. Vou deixar as coisas acontecerem normais.