Cidades do interior puxam retomada do mercado de trabalho com vagas na indústria

Indústria responde por 70% dos cargos abertos nos 10 locais que mais contrataram em 2017

Os primeiros sinais da retomada do mercado de trabalho brasileiro surgem com o bom desempenho da indústria de transformação em algumas cidades do interior do País. Os dados mais recentes divulgados pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) apontam que oito dos dez municípios que mais contrataram nos três primeiros meses de 2017 tiveram o saldo positivo guiado pelo setor industrial.

Em Franca (SP), cidade que mais contratou entre janeiro e março, 93,8% dos postos de trabalho com carteira assinado abertos (+ 4.395) foram para atuar na indústria. O mesmo percentual elevado de vagas no setor se repete em boa parte dos municípios que mais geraram postos formais neste ano. São eles: Nova Serrana (93,2%), Venâncio Aires (97,1%), Joinville (49,7%), Caxias do Sul (59,3%), Birigui (87%) e Blumenal (86,4%).

No segundo município que mais contratou trabalhadores formais em 2017, Santa Cruz do Sul (RS), a situação é curiosa. Ao mesmo tempo em que gerou 4.654 empregos no ano, a cidade teve 4.709 vagas criadas na indústria. Significa dizer que o desempenho positivo do setor não impulsionou as outras áreas de atividade, que perderam 55 postos de trabalho no primeiro trimestre deste ano.

As outras duas cidades que completam o topo da relação das que contrataram mais do que demitiram neste ano, Vacaria (RS) e Cristalina (GO), tiveram o bom desempenho relacionado com a agropecuária. Enquanto o município localizado na região sul do País gerou 3.559 vagas no ramo, a cidade goiana somou 1.763 novos cargos no setor entre os meses de janeiro e março.

Diante das informações das dez cidades que mais contrataram do que demitiram neste ano é possível afirmar que 70,6% das admissões com carteira assinada neste ano nas localidades foram feitas pela indústria de transformação, contra 18,7% da agropecuária.

Em todo o País, a indústria de transformação acumula 19.241 admissões a mais do que demissões ao longo dos primeiros meses de 2017. A maior parte dos cargos foi gerado pelos setores de calçados (+ 19.481), têxtil (+ 13.383) e borracha, fumo e couro (+ 12,905). Por outro lado, as indústrias de alimentos e bebidas (- 31.291), minerais não metálicos (- 3.997) e papel (- 1.606) demitiram mais do que contrataram entre janeiro e março.

O professor do Departamento de Economia da UnB (Universidade de Brasília) Carlos Alberto Ramos afirma que a atividade industrial sofre com a perda de competitividade em função da defasagem do câmbio. Ele avalia que a parceira com a agropecuária pode explicar o desempenho positivo dos setores de calçados e vestuário nas cidades interioranas.

— No interior, você tem um crescimento muito grande em função do agronegócio. Naturalmente, esse desempenho nessas localidades ocorrer por uma questão sazonal. Se você tem um setor agrícola muito dinâmico no interior, vai ter também um crescimento maior.

Serviços

Diferentemente do que acontece com a indústria, a retomada dos serviços, que acumula 27.659 contratações a mais do que desligamentos, foi verificada pelo bom desempenho do setor em cinco capitais do País: São Paulo (+ 7.952 vagas), Curitiba (+ 2.338), Natal (+ 1.707), Goiânia (+ 1.595) e Brasília (+ 1.423).

O resultado foi guiado, principalmente, pela área de ensino, que já contratou mais de 50 mil profissionais neste ano. Aparecem também com saldo positivo os setores de serviços médicos e odontológicos (+ 7.092) e serviços técnico-profissionais (+ 2.148).

Já os serviços de alojamento, alimentação, reparação e manutenção (- 20.499), instituições financeiras (- 6.722) e transportes e comunicação (- 5.310) impediram um desempenho mais positivo do setor no primeiro trimestre do ano.

Segundo Ramos, o desempenho do setor de serviços nacional ainda não pode ser comemorado. Ele diz que o ramo de atividades deve ser o último a sair da crise em função da preocupação persistente das famílias.

— Você ainda tem um medo do futuro e isso leva a restringir serviços que dependem muito da demanda interna e do poder de compra. Não acho que esse setor vai voltar a ser dinâmico a curto prazo.