Novo “fluxo” e briga de gato e rato marcam região central após operação na Cracolândia

Operação policial foi deflagrada no domingo (21) com a proposta de acabar com o tráfico local

A esquina da rua Helvetia com a alameda Dino Bueno — o centro da região do que até o último domingo (21) era conhecida como Cracolândia — estava tomada por jornalistas, policiais e pelo Corpo de Bombeiros no início da tarde desta terça-feira (23). Os usuários de crack que normalmente circulavam pela região se espalharam por outras ruas do centro.

A reportagem do R7 presenciou uma grande concentração de pessoas bem no meio da praça Princesa Isabel, a 300 metros do antigo “fluxo” (como é chamada a concentração de usuários).

Enquanto a cavalaria da Polícia Militar abordava um grupo de quatro pessoas na praça bem perto da avenida Rio Branco, do outro lado usuários consumiam crack. A reportagem presenciou a venda da drogas no meio de um novo “fluxo” momentaneamente instalado.


Era possível observar no novo local de concentração de usuários alguma lonas já montadas e a imagem que se tinha era de que uma “nova” Cracolândia estava prestes a começar.

Durante o início da tarde o prefeito, João Doria, esteve na região e afirmou que “nenhuma área vai se transformar em nova Cracolândia, a Cracolândia nesta área terminou.” O prefeito disse ainda que “a questão do crack, dos dependentes e das pessoas em situação de rua vai exigir ainda um longo e penoso trabalho nos próximos anos.”

Minutos antes, um acidente havia chamado a atenção: um desabamento na alameda Dino Bueno, ao lado de onde o governo municipal trabalhava para demolir um imóvel feriu três pessoas. A Prefeitura afirmou que os feridos entraram no prédio clandestinamente no local.

Algumas horas depois da passagem do prefeito pelo local, a tropa de choque da Polícia Militar retirou os usuários da praça Princesa Isabel e a partir daí o que foi visto pelas ruas da região foi uma briga de gato e rato. De um lado os policiais tentavam conter as grandes aglomerações e do outro os usuários tentavam correr para o antigo “fluxo”.

Naquele momento, os jornalistas e poucos policiais que estavam na alameda Dino Bueno foram acuados pelos usuários de crack. Em uma cena mostrada pelo helicóptero da Record TV é possível ver quatro policiais cercados por mais de uma dezena de pessoas. Uma pedra é arremessada em direção aos PMs e uma policial é atingida.

Até o início da noite desta terça-feira (23) era possível presenciar usuários de crack correndo de um lugar para outro na região.

Raphael Escobar, um dos organizadores do coletivo de ativistas  Craco Resiste, questionou a abordagem da Prefeitura. Ele afirma que “a Cracolândia não é um espaço físico, é um encontro de pessoas”. Ele complementa: “Esse encontro de pessoas deixou de ser na Dino Bueno com a Helvetia chegando até o Largo Coração de Jesus e por enquanto está espalhado. Aos poucos o grupo vai se juntar. Querendo ou não eles são uma comunidade, são família um do outro, são amigos e um protege o outro. A Cracolândia talvez saia daqui, mas eles vão aparecer em outro lugar.” Ele comparou a atual situação à ocorrida em 3 de janeiro de 2012, quando outra megaoperação na região acabou por espalhar os usuários pelo centro e outros locais da cidade.

Procurada pela reportagem, assessoria de imprensa da prefeitura de São Paulo afirmou que as informações sobre a abordagem policial são de responsabilidade do governo do Estado. A SSP (Secretaria de Segurança Pública) do Estado de São Paulo afirmou que “a Polícia Militar esclarece que continua ocupando a região da Nova Luz, juntamente com a Guarda Civil Metropolitana, para manter a ordem nas imediações e apoiar as equipes municipais e estaduais de saúde e assistência social destacadas para complementar as ações de acolhimento e tratamento dos dependentes químicos”.

De acordo com a SSP, “o policiamento na Cracolândia e entorno ganhou reforço de 80 policiais militares da Caep (Companhia de Ações Especiais de Polícia) e do Choque – Cavalaria e Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas (Rocam), além dos 120 PMs que já atuam regularmente na área”.

“Nesta terça-feira (23), por volta as 17h50, equipes da PM foram hostilizadas por dependentes químicos ao vistoriar um estabelecimento comercial desocupado, na Praça Princesa Isabel e foi necessário restaurar a ordem. Não houve relato de feridos e ninguém foi preso, completa a nota.