Tabagismo é doença. Conheça graus do vício e saiba como se tratar

Nunca é tarde para largar cigarro, dizem médicos; melhoras são sentidas em poucas semanas

Encarar o tabagismo como doença e não como um simples hábito nocivo à saúde é o primeiro passo a ser dado pelos fumantes para largar o vício. “As pessoas têm um preconceito com a busca por tratamentos, elas acham que parar de fumar é algo que têm de fazer sozinhas, sem ajuda médica. Normalmente, só buscam um especialista quando são diagnosticadas com uma enfermidade ou alguma limitação relacionada ao cigarro. Isso é um problema”, afirma a cardiologista Jaqueline Scholz, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo) e criadora do Programa de Assistência ao Fumante.

O Brasil tem hoje 18,2 milhões de pessoas que fumam, sendo 7,1 milhões de mulheres e 11,1 milhões de homens, de acordo com dados do Ministério da Saúde. O País é o oitavo no ranking de número absoluto de fumantes. Os casos que mais preocupam, segundo Jaqueline, são os de alto grau de dependência do cigarro, em que o abandono do vício se torna muito mais difícil.

— Isso é avaliado pelo comportamento do fumante. Nós procuramos saber o que desencadeia essa vontade desenfreada de fumar. Já se sabe, por exemplo, que as pessoas que buscam o cigarro em situações de estresse, ansiedade e tristeza têm alto grau de dependência. Aqueles que só se sentem em condições de se concentrar, produzir ou trabalhar depois de fumar também têm alto grau de dependência.

Ricardo Mourilhe, presidente da Socerj (Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro), aponta que o nível de dependência ainda está relacionado aos hábitos do indivíduo. “Aquela pessoa que acorda já fumando quase sempre tem um alto grau de vício. Quem faz uma refeição e já quer fumar imediatamente, em geral, também tem mais dificuldade de parar porque existe, certamente, um nível mais acentuado de dependência”, diz. Nessas situações, a saída mais efetiva são mesmo as intervenções com remédios, completa a cardiologista do Incor.

Como tratar o vício?

Hoje, os principais tratamentos oferecidos para aqueles que procuram ajuda médica para largar o vício, explica Jaqueline, envolvem dois medicamentos: a vareniclina, que age nos receptores de nicotina que existem no cérebro e assegura que o indivíduo perca o prazer em fumar; e a bupropiona, que atua nos neurotransmissores ligados ao bem-estar e auxilia no combate à abstinência.

— Muitas vezes, esses remédios são ministrados de forma conjunta e combinada. Em alguns casos, são aliados ainda a antidepressivos e ansiolíticos, já que certas pessoas, quando param de fumar, desencadeiam quadros de depressão e ansiedade. Isso é o que existe de mais moderno hoje em termos de tratamento para o tabagismo. O tradicional adesivo de nicotina, embora seja ainda oferecido pelo Ministério da Saúde, não é mais tão utilizado.

Ao aderir ao tratamento, o fumante demora aproximadamente quatro meses para se livrar completamente do cigarro, de acordo com a médica. Ela indica que, geralmente, não existe parada abrupta.

— No primeiro mês, o paciente começa com um remédio, reduz o consumo gradualmente e para de fumar até o fim do período. Se ele não consegue, complementamos com outro remédio e a intenção é que entre o segundo e o terceiro mês o indivíduo já esteja longe do cigarro. Aí existe a manutenção do medicamento para que, nesse momento, ele desincorpore todos os hábitos que tinha como fumante e não sofra com nenhum sintoma importante de abstinência, para que não haja recaída. A partir do quarto mês, retiramos os remédios.

A cardiologista reforça ainda que não existe perigo de o paciente se tornar dependente dos fármacos. Para Mourilhe, é válido também que fumante busque ajuda em grupos de apoio ou com psicólogos e terapeutas enquanto se trata. “Especialmente porque aqueles com alto grau de dependência têm um envolvimento muito mais psicológico do que químico com o cigarro”, diz.

Benefícios a curto e médio prazo

Depois de parar de fumar, a pessoa começa a sentir mudanças positivas no próprio organismo em apenas algumas semanas, garante o presidente da Socerj.

— Existe uma melhora da capacidade física e funcional, porque os pulmões começam a ventilar melhor. Entre duas a quatro semanas sem fumar, aquele indivíduo que subia um lance de escada e ficava exausto já não se cansa mais. É um aspecto que, em geral, se nota precocemente. Há ainda uma diminuição progressiva do risco de câncer, e não é só câncer de pulmão, é câncer também de língua, de laringe e de outros órgãos por onde a nicotina e as outras substâncias do cigarro passam. Além de tudo isso, entre cinco a dez anos sem fumar, o risco de sofrer um infarto se iguala ao risco de um não fumante.

Sabrina Presman, psicóloga e diretora do Espaço Clif, reforça que “parar de fumar é a coisa mais importante que uma pessoa pode fazer pela saúde dela, não existe nada que cause mais impacto positivo no organismo do que isso. Após apenas 24 horas, os níveis de monóxido de carbono — que é um gás poluente e uma das milhares de substâncias tóxicas presentes no cigarro — já diminuem no corpo do indivíduo, ele passa a absorver o oxigênio melhor, os pulmões desitoxicam. Então, os benefícios começam a aparecer logo. São efeitos progressivos que vão aumentando conforme o tempo passa”.

Outra das diferenças notadas no curto prazo é a retomada do olfato e do paladar — que, no caso dos fumantes, ficam comprometidos porque as vias respiratórias e papilas gustativas são completamente impregnadas pelas toxinas do cigarro. A redescoberta de cheiros e sabores, aliás, é um dos motivos pelos quais muitos ex-fumantes ganham peso, pondera Jaqueline.

— Essa é uma das razões, mas ainda há várias outras. O que se percebe é que, ao parar de fumar, a pessoa fica com uma ansiedade exacerbada. Geralmente, ela leva esse sentimento para o lado da comida, tenta compensar a ansiedade comendo. Fora isso, há uma mudança no metabolismo basal. A frequência cardíaca de quem fuma geralmente tem de 10 a 15 batimentos cardíacos por minuto a mais em relação a quem não fuma, porque a nicotina aumenta a pressão arterial. Ao largar o cigarro, a pessoa diminui seus batimentos cardíacos e, consequentemente, o organismo dela gasta menos energia.

A médica assegura, entretanto, que os efeitos na balança podem ser compensados com atividades físicas e acompanhamento médico. Com tratamento adequado para combater os sintomas de abstinência, a maioria dos pacientes não ganha mais que 4 kg.

— Vale lembrar ainda que nem todo mundo engorda. Com o uso dos medicamentos e acompanhamento no consultório, entre 60% e 70% dos pacientes ganham de 3 kg a 4 kg; 20% dos pacientes mantêm o peso e tem gente que até emagrece, porque passa a adotar um estilo de vida mais saudável, com alimentação regrada e atividade física. No fim das contas, acontece o que o paciente permite que aconteça.

Os especialistas endossam ainda que não existe idade para largar o vício. “A pessoa não pode pensar que, porque é idosa, deve se acomodar naquela situação. Nunca é tarde para parar de fumar. Em qualquer fase, sempre existe um ganho na qualidade de vida”, conclui a cardiologista do Incor.